Ronaldinho tem o dom de fazer o que quer com a bola. Mas o futebol não é sua única paixão. Como não é "doente do pé", o gaúcho, ainda sem saber em que clube jogará em 2011 - Flamengo, Grêmio e Palmeiras brigam pelo jogador -, pode tranquilamente, segundo os amigos do ramo, vestir a camisa 10 do samba. Há uma unanimidade de que o craque conhece bem o riscado. Pode ser de raiz, pagode, partido alto... De Cartola a Candeia, passando por Fundo de Quintal e Revelação, tanto faz. Estudioso, é capaz de pesquisar no Youtube vídeos antigos de bambas como Donga.
E dá para perceber no campo a manemolência. Os dribles e jogadas de efeito têm uma ginga toda especial. As comemorações nos gols e os batuques nas concentrações ou nos ônibus após as vitórias sempre o seguiram, do Grêmio ao PSG, Barcelona, Milan e Seleção Brasileira.O ídolo não esconde que, quando parar de jogar, vai trabalhar com música. Já tem até uma casa de shows em Porto Alegre, a Planet Music. Nas folgas, seja na capital gaúcha, no Rio, em Florianópolis ou até na Europa, é sempre visto em rodas de samba, feijoadas ou shows. E o gosto pelo ritmo preferido dos brasileiros teve influência na família. A mãe, Miguelina, é fã declarada de Alcione, dona de uma das mais belas vozes do samba. O irmão, o empresário Assis, também entende do assunto e já desfilou até em escola - seja na Restinga ou Samba da Orgia, ambas gaúchas, ou na Portela, no Rio.
Craque dá show de samba com a rainha da bateria
da Estácio, Shayene Cesário, na quadra da escola,
em 2010 (Foto: Daniel Pinheiro / Divulgação)
Quando vai ao Rio, Ronaldinho dá sempre uma passadinha na Mangueira, no Salgueiro, na Estácio ou na Portela para curtir as feijoadas e os ensaios das escolas. Gosta também de girar pela Lapa. Já deu canja por lá em shows do Tempero Carioca. Na Barra, apareceu também no Samba da Sopa, que Júnior organiza. É amigo de grupos de pagode como Molejo, Revelação, Exaltasamba. E do Fundo de Quintal, um dos mais tradicionais da história do samba.
- Nossa amizade é longa. Quando está no Rio, Ronaldinho vai aos nossos shows, sempre procura saber da turma. É um cara sensacional, o lazer dele é o samba, e sabe tudo, entende como poucos. Os maiores amigos dele são do samba de raiz. Conhece tudo, de Candeia a Cartola. Das nossas músicas, "Amizade" e "O show tem que continuar" são as que gosta mais - afirmou Bira Presidente, perto de completar 74 anos.
Fundo de Quintal e Cacique de Ramos
Bem como seu irmão, Ubirany, o pandeirista é da formação original do Fundo de Quintal, que completará 33 anos em 20 de janeiro. No mesmo dia, o Cacique de Ramos, bloco dos mais famosos do Rio de Janeiro e de onde o Fundo saiu, completará 50 anos. Sempre com Bira como presidente. Bamba como poucos, tem histórias saborosas do badalado amigo.- Em Roma, num festival que fizemos com shows também em Londres e Bruxelas, ele foi, pegou meu pandeiro e tocou no show. É sempre assim, acaba dando uma canja. Domina vários instrumentos, sabe cantar, sambar. Ronaldinho não é só futebol, ele tem tudo do carioca - afirmou Bira, ansioso por saber o destino do craque e pela festa que organizará para o Cacique, com missa e tudo na nova quadra do bloco.
Ronaldinho não e só do futebol, ele tem tudo do carioca"
Bira Presidente
Bira é dos tempos em que no Cacique se reunia a nata do futebol brasileiro no samba dos boleiros. Jairzinho, Paulo Cezar Caju, Brito e Marco Antônio, tricampeões mundiais. se juntavam a Marinho Chagas, Júnior, Roberto Dinamite, Josimar e Vanderlei Luxemburgo, geração posterior que manteve a tradição. Logo depois, entre outros, surgiu Assis, irmão de Ronaldinho, que atuou no Vasco e no Fluminense nos anos 90. E o meia, agora disputado por Flamengo, Grêmio e Palmeiras. Ubirany lembra dessas e outras histórias.
- Uma vez, estávamos numa festa no síto dele em Porto Alegre. Isso foi há uns seis, sete anos. De repente, ele chegou pra mim e pediu que eu cantasse "Milagres", de Dorival Caymmi. E gritou: "Vai sozinho!"... No couro eu vou à vontade, mas pra cantar sozinho... Só que não teve jeito. Tive que ir. Ele viaja nessa música. Ronaldinho sabe muito sobre samba. Toca bem pandeiro, tantã, arranha no cavaquinho... Uma vez, em Barcelona, pediu que eu me apressasse em aprontar para ele um repique de mão, instrumento que criei. Meu filho, Fábio, muito amigo dele, mandou. Como não ia fazer? Ronaldinho é sensacional, muito parceiro - afirmou Ubirany.
Ronaldinho da Estácio, do Salgueiro, da Portela e da... Mangueira. A verde e rosa também ocupa espaço nobre no coração do malabarista da bola e bamba como poucos, segundo os amigos (Foto: Divulgação)
Quem aprova também as qualidades do craque gaúcho no samba é outro boleiro. Futebol e samba sempre andaram juntos para Junior, eterno ídolo do Flamengo e agora comentarista da TV Globo, que, de férias em João Pessoa, cidade onde nasceu, comentou a performance de Ronaldinho presenciada no Samba da Sopa que organiza num bar na Barra da Tijuca
- O Ronaldinho toca bem, tem ritmo, molejo... Não é um intruso não, pelo contrário. O seu conhecimento de repertório é grande. Tem condições de ficar na roda cantando de tudo. Lá no Samba da Sopa, chegou com uma galera. Aí eu o chamei para tocar, ele pegou o pandeiro e mandou bem - afirmou o Capacete, que sempre marca presença nos desfiles das escolas de samba do Rio na Mangueira, sua outra paixão.
'Tabelinha' com Junior no Samba da Sopa, na Barra:
craques completos (Foto: GLOBOESPORTE.COM)
Junior lembrou que, naquele dia, Ronaldinho mostrou um bom apetite para o samba.
- Lá por volta de uma da manhã, ele chegou para mim e disse: "Junior, vou sair daqui e ainda vou para outra roda..." Ronaldinho é um cara que gosta disso.
Gosta tanto que, dentro de campo, Ronaldinho sempre ensaia seus passos cheios de ginga para comemorar os gols. Tal como Junior fazia também nos tempos de Flamengo e Seleção Brasileira. Os dois têm algo a mais em comum: a mania de puxar os sambas para a rapaziada da bola cantar. Quem não lembra do meia gaúcho puxando o refrão "Deixa a vida me levar", do samba consagrado por Zeca Pagodinho, na campanha do tetra mundial em 2002? E na Copa das Confederações de 2005, quando levou como poucos o samba-enredo da União da Ilha do Governador de 1991 "De bar em bar, Didi, um poeta"? ("Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre que eu tô feliz/Nessa eu vou de bar em bar/beber a vida que eu sempre quis...").
Um dos que mais sabem das preferências do craque sobre samba é Gutemberg Carvalho. Mineiro de Uberaba criado em Barra Mansa, no interior do Estado do Rio de Janeiro, e conhecido no Sul como Paulista, por ter chegado à cidade justamente de São Paulo, o andarilho - cujo pai trabalhava na Odebrecht e o obrigava a mudar-se sempre - tornou-se um grande amigo do craque gaúcho. Paulista é do grupo de pagode Samba Tri, que Ronaldinho patrocina.
- Ele sabe tudo. É capaz de buscar vídeos de músicas antigas no Youtube, como de Donga, por exemplo. Se a roda for de bambas, vai mandar clássicos de Cartola, Candeia, Roberto Ribeiro. Mas canta também os pagodes, partido alto.... Conhece vários estilos, de Francis Hime a Clara Nunes.
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